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Califado do Estado Islâmico recua com ataques sírios

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BAGDÁ e DAMASCO – Devagar e sempre. Desta forma, as forças envolvidas na guerra civil da Síria e a coalizão que ataca os jihadistas no Iraque tomam terreno do grupo Estado Islâmico (EI). Após retomar Palmira, cidade histórica síria, no final de março, soldados do ditador Bashar al-Assad ocuparam completamente al-Qaryatayn, que seria o último bastião do EI no deserto do país. Após dez meses sob o jugo extremista, a cidade, de maioria cristã, foi encontrada deserta e arrasada. No Iraque, tropas da coalizão tomaram várias aldeias ao redor de Mossul, preparando o ataque final à capital jihadista no país. O avanço na Síria superou o penúltimo obstáculo antes da ofensiva contra o centro de poder do EI, a cidade de Raqqa.

Segundo levantamentos de Washington, de agosto de 2014 a fevereiro deste ano, o EI perdeu entre 25% e 30% do território nos dois países. Ontem, o presidente dos EUA, Barack Obama, reuniu-se com o secretário de Defesa, Ash Carter, e afirmou que, apesar da “luta difícil”, o EI continua “perdendo terreno e sendo espremido financeiramente”:

— Estamos sufocando-os e vamos derrotá-los.

Se em junho de 2014 o EI anunciou um autoproclamado califado em vastas regiões nos países, unidas na fronteira sírio-iraquiana, o avanço das tropas leais a Assad, apoiadas pela Rússia, bem como dos rebeldes sírios e dos curdos apoiados pelos Estados Unidos estão novamente redesenhando as fronteiras.

— O EI está perdendo o conflito militar — afirmou ao GLOBO o professor Robert J. Riggs, pesquisador da história xiita na Síria da Universidade de Bridgeport, em Connecticut, nos EUA. — A campanha russa interrompeu linhas de abastecimento a partir da fronteira com a Turquia. E o empenho internacional para limitar o fluxo de combatentes estrangeiros rumo ao conflito tornou mais difícil para o EI pagar aos militantes, defender o território ou repor munições.

‘EI PERDE BATALHA MILITAR, MAS GANHA A DAS IDEIAS’

Neste momento, os militares sírios concentram as operações na retomada de Deir ez-Zor, capital da província de mesmo nome, no Leste do país, considerada cidade-chave na ofensiva para retomar Raqqa. Próxima à fronteira com o Iraque, a conquista de Deir ez-Zor seria estratégica para cortar territorialmente a ligação jihadista entre os dois países. Ontem, segundo a agência de notícias estatal síria Sana, o EI atacou o Exército nas proximidades da cidade com gás mostarda, arma química vetada pela Convenção de Genebra. “Os terroristas do Daesh (acrônimo do EI em árabe) atacaram o aeroporto militar de Deir ez-Zor com obuses com gás mostarda, provocando asfixia”, noticiou a Sana.

Quase 60% da cidade de Deir ez-Zor se encontram sob controle do EI, que cerca 200 mil civis e desde 2014 tenta assumir o controle da base aérea local. De acordo com fontes americanas e militares sírias, o EI já havia utilizado gás mostarda, que provoca dificuldades respiratórias, cegueira momentânea e bolhas na pele muito dolorosas, em outros confrontos na Síria e no Iraque.

Na segunda-feira, sete civis, incluindo três mulheres, morreram num bombardeio do grupo contra dois bairros de Deir ez-Zor controlados pelo regime, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). A ONG não confirmou o ataque com gás mostarda, mas informou que, no mesmo dia, dois homens-bomba do EI atacaram a localidade de Jafra, perto do aeroporto militar. Já a coalizão liderada pelos EUA continua a bombardear plantas de petróleo que compõem grande parcela da base de receitas dos jihadistas, executando ataques contra dois campos produtores perto de Raqqa.

Os rebeldes, por sua vez, avançaram ontem em direção a al-Rai, cidade controlada pelo EI próxima à fronteira com a Turquia. Este avanço pode corroer a última posição dos extremistas numa área prioritária da luta dos EUA contra o EI. A aliança de grupos rebeldes formada para a ofensiva inclui os grupos Sultan Murad, apoiado pela Turquia, e Failaq al Sham. Se antes enfrentaram dificuldades para obter firmes ganhos contra o EI na área, desta vez os rebeldes mobilizaram milhares de combatentes para o novo ataque, segundo fontes locais.

— As batalhas continuam. Fomos capazes de libertar várias aldeias muito rapidamente das mãos do Daesh e, se Deus quiser, vamos limpar o Norte de Aleppo — afirmou Abu Yasser, um dos comandantes do Failaq al-Sham, citando outra cidade síria sob controle do EI.

Segundo o OSDH, os grupos rebeldes tomaram, nos últimos dias, pelo menos 16 aldeias numa área controlada pelo EI já há dois anos. Ainda ontem, dentre os 25 ataques aéreos contra os jihadistas na Síria e no Iraque feitos pela coalizão liderada pelos EUA, seis bombardeios foram contra cidades próximas à iraquiana Mossul, a segunda maior do país. Em Sultan Abdallah, ao sul, foram atingidas posições de artilharia do EI, bem como carros carregados com explosivos e um lançador de foguetes. Já em Kisik, a oeste de Mossul, o alvo destruído foi um quartel-general do grupo extremista.

Apesar das derrotas jihadistas na frente de guerra, o professor Noomane Raboudi, especialista em Síria da Universidade de Ottawa, no Canadá, faz uma ressalva: “EI perde o conflito militar, mas está ganhando a batalha das ideias”.

— Hoje, milhões de jovens muçulmanos em todo o mundo, mesmo ocidentais, acreditam e defendem a visão política do EI. Agora, mais do que nunca, estão convencidos de que o Ocidente os odeia e quer sua destruição — enfatiza Raboudi. — A questão é: as condições políticas, culturais, econômicas e políticas que criaram o EI ainda existem, ou pioraram? Esta é a verdadeira batalha que a comunidade internacional, especialmente as democracias ocidentais, parece não entender. Se o EI for destruído, outro grupo similar vai tomar o lugar.

O professor Riggs concorda:

— Grupos extremistas em todo o mundo permanecem leais ao EI. Ataques na África, no Oriente Médio, na Ásia e na Europa foram realizadas nos últimos três meses em nome do EI.


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